Por Rui Miguel Abreu

Há algo de romântico na narrativa que uma certa intelligentsia internacional procura apresentar aos seus leitores acerca da batida de Lisboa quando remete as suas origens para um diálogo cultural resultante da diáspora, com as diferentes coordenadas do semba e do funaná, do kuduro, kizomba e afro house a inspirarem a criação de um híbrido futurista. Algo do género aconteceu, de facto, mas ao invés de um diálogo, as particulares condições socio-culturais dos bairros periféricos de Lisboa – como muito bem perceberá quem já tenha caminhado pelas ruas da Arrentela, da Cova da Moura, do Vale da Amoreira ou da Quinta do Mocho – favoreciam antes a criação de uma gloriosa e lenta cacofonia imposta ao longo de gerações, com os sistemas de som dos quartos e das salas, das cozinhas e dos cafés, das mercearias e das festas de rua, dos carros e dos leitores de MP3 nos recreios a servirem à comunidade uma mistura muito mais complexa que incorporaria, certamente, os balanços das identidades de origem – sobretudo os importados de Angola e Cabo Verde, mas também de São Tomé e Príncipe e Moçambique e Guiné – e ainda o que quer que a MTV pudesse debitar em qualquer momento, os ecos do house escutado nas discotecas de fim de semana, os sons mais comerciais da rádio… Tudo absorvido a um tempo, como as peças de um complexo puzzle que se despejam sobre uma mesa de uma vez, não permitindo imediatamente a percepção da imagem que escondem.

Nídia É Má, Nídia É Fudida é a última etapa num processo de crescimento pessoal que pode funcionar como modelo para a própria cena mais vasta em que Nídia se insere. Quando as buscas de material para os alinhamentos “tropicais” do programa Ginga Beat da então Red Bull Music Academy Radio me conduziram, há uma meia dúzia de anos, até à página soundcloud de Nídia Minaj a descoberta de um vibrante conjunto de peças que se apresentavam como rajadas de futuro, quase só feitas de nervo, sempre pontuadas por samples de voz que eram como tags numa parede, marcas de uma críptica identidade que remetiam para um tal “estúdio da mana”, percebeu-se imediatamente que havia ali uma inescapável amostra de algo novo. As peças de Nídia – que então assinava Nídia Minaj, uma nada subtil vénia a uma das tais estrelas MTV que despontavam no meio do caos de referências apontado anteriormente – eram ultra-minimais propostas rítmicas que pareciam ser a conclusão de um processo de depuração das pistas que tinham sobrevivido à passagem do Vale da Amoreira, onde dançava com as Kaninas Squad, até Bordéus, em França, para onde a sua família se mudou quando contava apenas 14 anos. Um computador e uma vontade clara de agarrar esse som que ecoava na sua cabeça – meio memória, meio desejo – trouxe Nídia até aqui, a 2017. E ouvido lado a lado – o material primordial que ainda tem no Soundcloud e as novas peças que compõem Nídia É Má, Nídia É Fudida – a ideia que se obtém é que a música soa simultaneamente igual e diferente: o pulsar nervoso e urgente parece ser o mesmo, mas Nídia aprendeu a arte da tangente, da deriva, e cada um dos seus beats incorpora agora muitos mais elementos sónicos. Parecem fotografias da mesma paisagem, mas agora com muitos mais pixeis, mais foco, maior nitidez.

É importante perceber que este é o primeiro álbum de artista no catálogo da Príncipe que, como muito bem sabemos, inclui material de verdadeiros faróis desta cena – de DJ Marfox a DJ Nigga Fox, DJ Firmeza e DJ Nervoso. Num momento de intensa discussão das questões de género no seio da música electrónica este não é um facto de somenos. Ao longo das onze faixas do álbum (mais três na versão algo mais dilatada em CD), que quase sempre se detêm abaixo dos três minutos (apenas três temas ultrapassam esta marca enquanto que a faixa mais curta se extingue após meros 48 segundos), a intensidade urgente que sempre foi sua marca permanece. A diferença é que Nídia consegue agora injectar muito mais drama dentro de cada uma das faixas. Escute-se, por exemplo, “Dedo”: uma dramática linha de sintetizador, samples sobrepostos de vozes masculinas, pads que carregam ritmo, um pulsar afro-house e uma mais ampla distribuição de frequências pelos espectros de graves transformam esta peça numa insuperável bomba para as pistas, um tema que parece conter tanto de 24 de Julho às 5 da manhã numa noite de sábado de 1999 como de fim de tarde no Boiler Room em Nova Iorque em 2017.

A assinatura aural de Nídia parece resultar do seu completo desrespeito pelas “regras” de produção: na sua amálgama de sons, nem todos têm que fazer “sentido” – há dissonâncias, choques entre ritmos e pulsares sintetizados, ruídos que parecem aparecer sem serem solicitados, caindo nos arranjos como elementos que apenas servem para perturbar o flow, como se Nídia não quisesse nunca ceder a um arranjo quadrado e certinho. Mas as cadências que cria com as suas tarolas são sempre irresistíveis, puxando-nos para dentro da acção sem apelo nem agravo. E, curiosamente, para uma música que tanto respira futuro, há muito de nostálgico por aqui também como, por exemplo, “I Miss My Ghetto” deixa claro: uma belíssima missiva de saudade a uma memória de crescimento que se apoia num curtíssimo sample de uma qualquer distante faixa de piano house, cortada e processada até não ser mais do que um simples fragmento aural, uma sugestão de algo maior impossível de adivinhar agora, mas ainda capaz de fazer disparar alarmes emocionais. Perfeição absoluta, algo que não falta por aqui. Na verdade, só uma coisa parece não sobrar a Nídia: tempo! A sofisticação das suas ideias quase que parece implorar por maiores escalas na apresentação dos seus temas, por mais tempo para que a deriva na pista não seja interrompida pela ideia seguinte que mal nos eleva parece logo desvanecer-se para dar lugar a outra coisa. Não é defeito, é feitio, mas não deixa de levantar a questão: “e se ficássemos aqui um pouco mais?…”

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Por Joan Escutia

Príncipe Discos es una especie de milagro de nuestros tiempos. No es ninguna hipérbole, sino una afirmación cuyos fundamentos son más que palpables. En una época en la que la música dominante es aquella que enmarca las noches del mundo y en una era en donde el internet se convirtió en el medio de transporte más eficaz para el descubrimiento de las culturas del globo, la labor de la disquera más emblemática de Portugal parece sensatamente adecuada. No solo es un espacio de descubrimiento para la fiesta, sino también para todo lo que arrastra detrás de ella.

Desde la cuidada estética de cada uno de sus lanzamientos, hasta el ADN que comparten todos los involucrados y los grandes discos que ha arrojado hasta la fecha, Príncipe es una de esas cosas que hay que descubrir. Y hoy, en pleno 2017, parece no haber mejor punto de partida para hacerlo que el debut de Nídia, una productora de aquel lado del charco antes conocida como Nidia Minaj.

En un grupo de jóvenes, Nídia amenaza con ser una de las de más corta edad. Con veinte años y un increíble EP lanzado hace un par de años, ha sabido darle un nuevo rostro a su disquera, no solamente siendo aquella que pinta de rojo furioso el catálogo, sino también como una bocanada de aire fresco en medio de una avalancha de experimentación. Su primer disco de larga duración es todo eso y todavía un poco más.

Nídia É Má, Nídia É Fudida es un monstruo de 14 canciones que tienen toda esa tradición africana y europea que han forjado el sello característico de la disquera, pero también cuenta con cosas que sorprenderían incluso al oído más familiarizado. Ahí está “Puro Tarraxo” presentándose como el reggaetón más extraño desde “De Bugas” de El Guincho, o “Biotheke” y su oscuridad tan etérea como el fantasmagórico discurso de “Indian”. Son canciones que piden a gritos una pista de baile y que al mismo tiempo claman atención a su manufactura.

Por lo menos en la hechura de cosas como “House Musike Dedo” o “Underground” así lo hacen, pues lo de Nídia es una mezcla perfecta entre el discurso occidental de la música club y la visceral rebelión de los sonidos de África. Un contraste en papel, pero una ideal combinación en manos de su creadora. De ahí es que poderosos macanazos como “Shane Noah” o “Brinquedo” funcionen tan bien a cualquier oído curioso. La exploración es efectiva y las sorpresas no paran.

La mejor labor del internet es acercar el mundo al resto de sus habitantes, ayudar a descubrir tesoros que parecen lejanos pero que en realidad no lo son tanto. Príncipe Discos es uno de ellos, una disquera que comparte espíritu con varias cosas que se hacen en México y que no teme en demostrar esa cercanía a través de efectivos manifiestos de tercer mundo que resuenan en las fiestas del globo. Nídia es una de las gemas que conforman ese tesoro y este disco un resplandor que no hace otra cosa sino invitar a abrazarlo.

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Words by John Twells
Click image above to listen to the mix.

Before moving to France at age 11, Nídia spent her early years in Portugal, just outside of Lisbon, and was fascinated by kuduro, an innovative form of Angolan dance music that evolved in Lisbon’s barrios. The hiccuping beats and lurching melodies of the “kuduro continuum” still make up the backbone of Nídia’s music, but she brings plenty more into the mix.

Nídia’s debut album was released this month on Portuguese club music powerhouse Príncipe, and is entitled Nídia É Má, Nídia É Fudida – Nídia is bad, Nídia is dope. This should give you some clue to the young producer’s confidence. There’s no meandering and no waffle, no theorizing or contextualization; instead Nídia gets straight to the point, cherry-picking far-reaching influences – hip-hop, batida, tarraxo, hardcore, techno, ambient – and assuredly re-creating them in her own image.

Her FACT mix is equally as singular, guiding us through a collection of polyrhythmic club bangers from across the diaspora. With clattering percussion, humid basslines and squealing warehouse-ready synths, this is music that should bring life to any party – it’s decidedly future-facing and offers an exciting alternative to the usual festival sounds cluttering up the feed throughout the summer. Who needs ‘Despacito’ anyway?

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Words by Rafael Lubner

Nídia (f.k.a. Nidia Minaj) occupies a position of liminality on her new album, Nídia é Má, Nídia é Fudida. She is everywhere and nowhere, an animating presence and a ghostly remnant. She conjures tracks from the ether, works them into off-kilter shapes, and rests them obliquely against the kuduro continuum, where they can fizz and pound of their own accord. On this, her first full-length for Príncipe, Nídia positions herself as a sonic bricoleur, soldering her tracks together from the discarded parts of other genres, textures, and rhythms. It’s a beguiling construction, a mapping of a sonic constellation in real-time: upbeat house keys running alongside modular synth figures and trance stabs, moments of quiet reflection twinned with giddy percussion; all churned together to form a playful, gritty funk.

The album begins in heraldic mode, with the baile funk flex of “Mulher Profissional.” Plosive chats, deep bass, and chopped brass swim together spaciously, smoothly twisting the listener into the album’s grooves. A minimalist approach to composition predominates, as a select few elements are arranged and rearranged in complex patterns, equally strange and intuitive. These tracks share an immanent sonic absence, a calm center around which Nídia’s ghostly fingers move. This movement can be wispy and placid, as on “Underground,” which stutters with the urgency of a grime edit, or, as on “Puro Tarraxo,” it can slur and sway, using queasy, discontinuous elements — buoyant textures, odd MIDI trumpets, ricocheting voices — to construct a music that splits the difference between Foodman’s off-piste footwork and DJ Nigga Fox’s seasick jams.

There’s a tumbling, fractal fluidity to Nídia é Má, Nídia é Fudida, a sense that we’re witnessing a deconstruction of the album’s sonic materials. It’s the sonic equivalent of that scene in The Lego Movie where they build and rebuild their vehicle as they’re driving it. Consequently, these tracks move at speed, rarely outstaying their welcome. Like DJ Nervoso’s tracks, they burst into being with a flourish, animated by a manic energy, grabbing the listener’s attention, before powering down in anticipation of the next volley of sound. “É da Banda” is a case in point, a riotous procession of stop-start percussion that gathers momentum and force with the addition of rolling toms, disembodied laughs (not quite human and not quite animal), and a dull, whipping sound that shoots through the track. There’s a real finesse to the way Nídia balances the pummeling impact of her drums with the subtlety of her textural and generic work. Her music is never overpowering, even at its most calorific. Rather, it steers the listener along, gently irradiating them with its steely grin, glinting eye, and nomadic footwork. These are tracks founded on a sense of jollity, a gradual unfolding of sound and rhythm, on a microphysics of movement, of small, repeated gestures, held close to the body, given out with thought and care.

“I Miss My Ghetto” might be the album’s paradigmatic track. Taking the remnants of a piano house track and splaying the keys melancholically over skittering found-sound percussion, it juxtaposes absence and presence, momentum and stasis. The track speaks to Nídia’s dislocation from the Lisbon where she grew up, and is happy to dwell in this homesickness, in its liminal position — neither in nor out. It refuses concretization for the play of disconnection, drifting along, carrying its feelings on its back, a perfect concoction of happysadness. This is generous music, tactile and febrile. It carries its creator’s traces — her joys, her sorrows, the sounds that make her dance — and happily gives them over to the listener, so that they may create their own mesh of associations, find their own moments of uplift and stillness within its dislocations. A viral transfer of bricolage; music for swaying bodies and grinning faces.

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